sábado, 9 de fevereiro de 2008

HABEAS PINHO.


 Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serena foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido. o famoso poeta e atual senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.


Senhor Juiz.

Roberto Pessoa de Sousa


  • O instrumento do "crime"que se arrola
  • Nesse processo de contravenção
  • Não é faca, revolver ou pistola,
  • Simplesmente, Doutor, é um violão.
  • Um violão, doutor, que em verdade
  • Não feriu nem matou um cidadão
  • Feriu, sim, mas a sensibilidade
  • De quem o ouviu vibrar na solidão.
  • O violão é sempre uma ternura,
  • Instrumento de amor e de saudade
  • O crime a ele nunca se mistura
  • Entre ambos inexiste afinidade.
  • O violão é próprio dos cantores
  • Dos menestréis de alma enternecida
  • Que cantam mágoas que povoam a vida
  • E sufocam as suas próprias dores.
  • O violão é música e é canção
  • É sentimento, é vida, é alegria
  • É pureza e é néctar que extasia
  • É adorno espiritual do coração.
  • Seu viver, como o nosso, é transitório.
  • Mas seu destino, não, se perpetua.
  • Ele nasceu para cantar na rua
  • E não para ser arquivo de Cartório.
  • Ele, Doutor, que suave lenitivo
  • Para a alma da noite em solidão,
  • Não se adapta, jamais, em um arquivo
  • Sem gemer sua prima e seu bordão.
  • Mande entregá-lo, pelo amor da noite
  • Que se sente vazia em suas horas,
  • Para que volte a sentir o terno acoite
  • De suas cordas finas e sonoras.
  • Liberte o violão, Doutor Juiz,
  • Em nome da Justiça e do Direito.
  • É crime, porventura, o infeliz
  • Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
  • Será crime, afinal, será pecado,
  • Será delito de tão vis horrores,
  • Perambular na rua um desgraçado
  • Derramando nas praças suas dores?
  • Mande, pois, libertá-lo da agonia
  • (a consciência assim nos insinua)
  • Não sufoque o cantar que vem da rua,
  • Que vem da noite para saudar o dia.
  • É o apelo que aqui lhe dirigimos,
  • Na certeza do seu acolhimento
  • Juntada desta aos autos nós pedimos
  • E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha LIma: o verso popular.


  • Recebo a petição escrita em verso
  • E, despachando-a sem autuação,
  • Verbero o ato vil, rude e perverso,
  • Que prende, no Cartório, um violão.
  • Emudecer a prima e o bordão,
  • Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
  • É desumana e vil destruição
  • De tudo que há de belo no universo.
  • Que seja Sol, ainda que a desoras,
  • E volte á rua, em vida transviada,
  • Num esbanjar de lágrimas sonoras.
  • Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
  • Noite de luz, plena madrugada,
  • Venha tocar á porta do Juiz.

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