sábado, 4 de setembro de 2010

MULHER MINEIRA


© Carlos Drummond de Andrade


O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.


Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?


Porque, Deus, que sotaque!


Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde.


Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?


Assino achando que ela me faz um favor.


Eu sou suspeitíssimo.


Confesso: esse sotaque me desarma.


Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.


Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.


Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho


(não dizem: pode parar, dizem:'pó parar').


Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.


Digo-lhes que não.


Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade.


Fala que ele é bom de serviço.


Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô.


Se der no couro - metaforicamente falando, é claro - ele é bom de serviço..


Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.


Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra:


'cê tá boa?' Para mim, isso é pleonasmo.


Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.


Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.


Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: Mexe com isso não, sô


(leia-se: sai dessa, é fria, etc).


O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados.


Quer dizer, por exemplo, trabalhar.


Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido.


Querem saber o seu ofício.


Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.


É um tal de 'bonitim', 'fechadim', e por aí vai.


Já me acostumei a ouvir: 'E aí, vão?'. Traduzo: 'E aí, vamos?'.


Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira.


Não ouvirá nunca.Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.


Nada pessoal.


Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.


No supermercado, não faz muitas compras, ele compra'um tanto de coisa'.


O supermercado não estará lotado, ele terá 'um tanto de gente'.


Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' lá na frente. Entendeu?


Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: Ai, gente, que dó.


É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.


Não vem caçar confusão pro meu lado.


Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'.


Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.


Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?


A propósito, um mineiro não pergunta: 'você não vai?'. A pergunta, mineiramente falando, seria: 'cê não anima de ir'?


Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.


Tem tantos outros... O plural, então, é um problema.


Um lindo problema, mas um problema.. Sou, não nego, suspeito.


Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.


Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.


Se você, em conversa, falar:- Ah, fui lá comprar umas coisas... Que' s coisa? - ela retrucará.


O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.


A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'prôcupa não, bobo!'.


E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.


Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.


A fórmula mineira é sintética.


E diz tudo.


Até o 'tchau' em Minas é personalizado.


Ninguém diz tchau pura e simplesmente.


Aqui se diz: 'tchau procê', 'tchau procês'.


É útil deixar claro o destinatáriodo tchau.


Então... chau procês!'Quando os homens são puros,as leis são desnecessárias;quando são corruptos,elas são inúteis'!(Disraeli)(Presente da Rita Mineira...)
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