terça-feira, 13 de abril de 2010

MULHER MINEIRA


© Carlos Drummond de Andrade

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.

Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque!

Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde.

Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?

Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo.

Confesso: esse sotaque me desarma.

Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.

Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho

(não dizem: pode parar, dizem:'pó parar').

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.

Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade.

Fala que ele é bom de serviço.

Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô.

Se der no couro - metaforicamente falando, é claro - ele é bom de serviço..

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.

Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra:

'cê tá boa?' Para mim, isso é pleonasmo.

Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.

Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: Mexe com isso não, sô

(leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados.

Quer dizer, por exemplo, trabalhar.

Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido.

Querem saber o seu ofício.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe.

É um tal de 'bonitim', 'fechadim', e por aí vai.

Já me acostumei a ouvir: 'E aí, vão?'. Traduzo: 'E aí, vamos?'.

Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira.

Não ouvirá nunca.Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.

Nada pessoal.

Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.

No supermercado, não faz muitas compras, ele compra'um tanto de coisa'.

O supermercado não estará lotado, ele terá 'um tanto de gente'.

Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' lá na frente. Entendeu?

Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.

Não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'.

Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: 'você não vai?'. A pergunta, mineiramente falando, seria: 'cê não anima de ir'?

Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema.

Um lindo problema, mas um problema.. Sou, não nego, suspeito.

Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.

Se você, em conversa, falar:- Ah, fui lá comprar umas coisas... Que' s coisa? - ela retrucará.

O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'prôcupa não, bobo!'.

E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam.

Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.

A fórmula mineira é sintética.

E diz tudo.

Até o 'tchau' em Minas é personalizado.

Ninguém diz tchau pura e simplesmente.

Aqui se diz: 'tchau procê', 'tchau procês'.

É útil deixar claro o destinatáriodo tchau.

Então... chau procês!'Quando os homens são puros,as leis são desnecessárias;quando são corruptos,elas são inúteis'!(Disraeli)(Presente da Rita Mineira...)

Um comentário:

Sandra Botelho disse...

Uai...
É assim mesmo que falamos, eu como mineira não sei explicar o porque disso não viu?
Acho que é habito...
Bjos achocolatados e amei a homenagem ao nosso sotaque.
Ah me visite em meu novo blog?
http://sandra-botelho.blogspot.com/
Te espero viu?