quinta-feira, 3 de abril de 2008

BICHO DE ESTIMAÇÃO


BICHO DE ESTIMAÇÃO
Sylvia Cohin & Fernando Peixoto
(Dueto)

a saudade é um bichinho
parecido com cupim
que faz no peito o seu ninho
e um estrago sem fim...
espécie de parafuso
sempre enroscando-se em mim.

em silêncio, noite e dia,
vai roendo ferozmente...
como quem acaricia,
tudo traça com seu dente...
corta, trinca, morde, estria,
moe o corpo, lentamente.

de saudade morre gente
que também por ela vive
um bichinho diferente:
só morre se sobrevive!
escorrega, na ladeira
da tristeza, em declive.

coitado do arquiteto
que desenhar a saudade
seja em madeira ou concreto,
dela não mostra a metade...
mostra apenas um deserto
com miragens de verdade.

não há nada que a defina
com exata precisão:
saudade é dor que amofina,
é voluntária prisão.
uma espécie de morfina
para a dor da solidão.

não se tente amordaçá-la
resulta devastação...
saudade quando se cala,
rasga o peito e o coração!
é grito que nos abala,
tempestade, furacão!

é por isso que o poeta
que faz rima, escreve canto,
se da palavra é esteta,
...da saudade veste o manto!
aedo, bardo ou profeta,
enche de versos seu pranto.

SYLVIA COHIN & FERNANDO PEIXOTO
Porto, 14.06.2006
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