sábado, 5 de fevereiro de 2011

O PALCO DA VIDA SEM A ATRIZ PRINCIPAL

Autoria desconhecida.
Eu tinha 25 anos, advogado recém formado, labutava com a vida como todo jovem iniciante na profissão e como sempre fazia todos os domingos dirigi-me a uma banca de revista para comprar o meu jornal, a banca de revista ficava a uns 800 metros da minha casa e por isso eu sempre fazia o percurso a pé.

Chegando à banca de revista, notei a presença de uma moça muito bonita que folheava uma revista e por vezes levantava a cabeça para fazer alguma indagação ao dono da banca, foi num desses momentos que tive a oportunidade de ver que seus olhos eram azuis, lembro-me bem que ela vestia uma saia verde e uma blusa branca e que tinha no pescoço uma fina corrente com um crucifixo.


Não sei por qual motivo não conseguia sair da banca de revista, parecia que algo me amarrava ali, embora já tivesse com o meu jornal nas mãos há muito tempo. A moça colocou a revista na pilha, desejou um bom dia ao seu José dono da banca e partiu andando na mesma direção da minha casa. Nesse momento me despedi também e apressei o passo para alcançar a moça; quando estávamos lado a lado procurei a ela se não tinha encontrado a revista que procurava, ela me olhou e disse simplesmente que tinha esgotado.


Nesse momento eu procurei a ela se podia continuar andando ao seu lado, pois a minha casa ficava logo adiante, ela me disse apenas – como quiser -, me enchi de coragem e perguntei a ela qual era o seu nome, ela disse simplesmente Luiza, sem procurar o meu; como estávamos passando em frente a uma casa com um jardim muito florido, apanhei uma rosa vermelha e continuei a caminhada. Quando estava em frente a minha casa disse a ela que ia ficar por ali e lhe ofereci a rosa que havia retirado no jardim juntamente com um cartão de visita no qual continha além do meu nome e endereço, o número do meu telefone. Ela agradeceu e se foi sem olhar para trás, até o momento em que dobrou a esquina e não a vi mais.



O tempo foi passando, e ela desapareceu, cheguei a pensar que tudo era um sonho meu, procurei o jornaleiro por ela e fui informado que ela havia aparecido mais umas duas vezes por lá, mas que já fazia algum tempo. Depois dessa informação achei melhor procurar esquecer aquela moça encantadora de olhos azuis isso já tinha passado uns noventa dias ou mais, quando a minha secretária me disse que uma mulher chamada Luiza estava ao telefone se eu ia atendê-la; nessa hora meu coração parecia que ia pular pra fora do peito, atendi prontamente e ouvi do outro lado uma voz meiga que me disse – olá tudo bem! aqui é a Luiza a quem você deu uma rosa e um cartão ainda se lembra de mim? Completamente trêmulo, disse que me lembrava e que era um motivo de muita alegria estar falando com ela, mesmo porque não conseguia esquecer aquela manhã de domingo.


Como foi o primeiro telefonema, marcamos um encontro numa churrascaria, ela me disse que cada um deveria ir no seu próprio carro. Concordei na hora e marcamos para um sábado às 19 horas, isso era uma quarta feira, fiquei pensando como seria possível agüentar esperar até sábado, ia ser uma eternidade. Mas não tinha outro remédio o jeito seria esperar, mesmo porque diante da minha ansiedade e descontrole emocional nem procurei no número do seu telefone.


Chegou o dia marcado, às 17 horas eu já estava pronto, andando de um lado para o outro e os minutos pareciam eternos, as 17,30 lá fui eu às 18 horas já estava sentado na mesa que havia reservado, mais ao fundo devido ao barulho, eu não queria que nada atrapalhasse aquele dia que para mim estava sendo mágico, um presente de Deus. Olhava impacientemente o relógio e ela nada, quando faltavam cinco minutos para à hora marcada eu a vejo entrando, que coisa mais bela, que mulher mais elegante, levantei-me e me dirigi ao seu encontro, nos cumprimentamos, puxei a cadeira nos sentamos e ela num sorriso encantador, me disse: desculpa a demora, tive que resolver um problema antes de sair. Respondi prontamente, que não tinha qualquer importância eu estava ali e ali ia permanecer o tempo que fosse necessário.


Ficamos na churrascaria até as 23 horas, quando então ela se manifestou a vontade de ir embora já que teria que levantar cedo para o trabalho ela era fisioterapeuta, eu a deixei à vontade paguei a conta, levantamos e nos dirigimos aos carros, levei a até o seu automóvel, beijei-lhes as mãos, abri a porta do carro ela deu partida e se foi, não sem antes agradecer e me dar de presente mais um lindo sorriso, o mais encantador que já vi em toda minha vida. Mas agora tudo seria diferente, pois tinha o seu endereço e não me esqueci de anotar o número do seu telefone.


Os encontros se sucederam, falávamos todos os dias, e nos encontrávamos duas vezes por semana sempre as quartas e sábados algumas vezes aos domingos, quando ia almoçar em sua casa, isso tudo durante uns 10 meses, quando então, num sábado véspera de natal, fui até sua casa e pedi a sua mão em casamento, ela ficou em estado de choque, porque não tinha lhe dito nada a respeito. Seus pais estavam presentes, a mãe levantou os olhos abaixou os óculos e disse que por ela tudo bem me achava um bom moço; seu pai disse apenas vou ganhar um novo filho? Olhei para a minha Luiza ela estava com um olhar fixo em mim, mas deixou desabrochar um sorriso encantador e aceitou a minha proposta; em maio do ano seguinte estávamos nós diante do sacerdote, a igreja toda enfeitada de flores brancas, eu mal conseguia esperar a porta da igreja se abrir e vê-la entrando para ser minha para sempre; Tocou-se – SHE a música que havíamos escolhido para a ocasião, a porta se abriu e lá estava ela, estarrecedoramente bela, o suor me banhava o corpo eu mal acreditava que aquilo tudo fosse verdade.


A lua de mel foi tudo de encantador, em Campos do Jordão, onde ficamos uma semana, de volta para casa a vida retomou o seu curso normal, mas ela todos os dias me surpreendia mais com o seu carinho, compreensão e beleza, não podia ter encontrado, no mundo, outra mulher igual aquela, era mais que minha cara metade, ela me completava por inteiro, diz que todos temos as nossas qualidades e defeitos, ela não tinha defeitos, somente qualidades.


Um ano e oito meses após o casamento nasceu o Luiz Eduardo, menino saudável, que trouxe, ainda, mais alegria àquela casa onde a felicidade parecia ser hóspede eterna. Mais dois anos nasceu a Meirielly, tão bonita quanto a mãe, pois mais não era possível, as crianças foram crescendo e a vida era um canteiro de felicidade, o Luiz Eduardo e a Meryelle saindo para escola todos os dias, sem nunca deixar de me dar um beijo pois a minha Deusa era quem os levava todos os dias.


Nosso casamento e nossa história superava a casa de 18 anos, a Meirielly mocinha e o Luiz Eduardo fazendo torcida para o flamengo, tornava tudo ainda mais alegre e feliz naquele lar onde reinava a paz e o amor. Certo dia, notei que a minha Luiza estava meio triste, mas procurei não entrar na sua intimidade, pois na vida tem horas que precisamos ficar a sós, com nossos pensamentos e somente na nossa própria companhia. É inacreditável dizer que durante todo nosso relacionamento jamais tivemos qualquer atrito, ou nos dirigimos um ao outro com palavras ásperas; tudo era resolvido da melhor maneira possível, e ela sempre me procurava se tínhamos tomado a decisão certa.



Entretanto, a tristeza continuava estampada no seu olhar, o que, evidentemente, me preocupou, procurei a ela se estava havendo algum problema, pois ela andava muito triste; prontamente retrucou dizendo que não havia nada que tudo estava muito bem, que era apenas cansaço do trabalho, coisas que todo casal tem; eu olhava para ela e continuava preocupado, pois ela não me olhava nos olhos, quando eu tocava na sua tristeza.


Foi aí que resolvi segui-la para tentar descobrir o que estava havendo, traição jamais, pois isso não fazia parte da personalidade daquela mulher íntegra, fiel e bela. Não demorou muito num desses dias que a segui a vi parando diante de um consultório médico; fiquei à distância e aguardei para ver o tempo que ela ia ficar por lá, isso durou mais ou menos uns 40 minutos, ela saiu tão bela quanto entrou, pegou o carro e se foi. Eu fui para o escritório e de lá liguei para ela procurando se estava tudo bem, ela, do outro lado, deu aquele sorriso que me encantava e a resposta foi afirmativa, porque você acha que não deveria estar? tudo sem problemas e disse ao final um grande beijo pra você meu amor, até mais tarde querendo Deus.


A minha preocupação aumentou, ainda mais, não consegui trabalhar naquela tarde e voltei mais cedo para casa, quando foi mais ou menos umas 17 horas ela chegou abriu a porta, colocou a bolsa em cima de uma mesinha que tem ao lado do sofá, me deu um beijos, e subiu para o quarto, antes foi ao encontro dos meninos e depois foi tomar o seu costumeiro banho.


Como eu sabia que ela demorava no banho, fiquei olhando a bolsa que ela havia deixado na mesinha e veio a minha mente uma vontade grande de ver o que tinha dentro da dela, embora nunca tivesse vasculhado nada que era do seu uso pessoal, nós sempre respeitamos muito a individualidade de cada um, embora nunca tivéssemos discutido sobre esse tema era uma coisa natural. Tomei coragem peguei a bolsa e abri, tinha além das coisas que toda mulher carrega de maquiagem, uma receita médica, peguei li e vi que a especialidade do médico era oncologista; nesse momento o mundo desabou para mim, a terra parecia estar fugindo aos meus pés. Fechei a bolsa. Coloquei a no mesmo lugar, peguei minha algum dinheiro, fui até o barzinho mais próximo e comprei uma carteira de cigarros e fumei vários seguidamente, embora já não tivesse esse vício há muitos anos.


Voltei para casa fui pra uma janela que dá para ver o céu, ainda era sonoite, fiquei olhando para esse mundo de Deus, sem acreditar que aquilo que havia descoberto pudesse ser verdade. Não contive as lágrimas, deixei-as cair à vontade, minha dúvida havia se transformado em desespero, entretanto, me mantive firme, sentei-me no sofá foi quando ouvi o barulho dos seus passos, ela se aproximou de mim, cada dia mais linda e mais surpreendente, beijou-me novamente e disse: nossa que cheiro de cigarro será de onde está vindo? Então eu falei pra ela: não, hoje me deu vontade de fumar fui ali e comprei uma carteira e fumei muitos seguidamente, ela me olhou meio que de lado, deu novamente aquele sorriso único nesse mundo e me disse: depois você me pergunta se eu estou com problema você e que precisa da ajuda, cigarro não faz parte da sua vida, eu deitei-me no sofá e com a cabeça de encontro ao seu peito chorei copiosamente ao compasso do seu coração.


Ela percebeu que eu havia chorado, mas como os meninos desceram, ela nada me perguntou e eu também nada falei, fui para o quarto, tomei um banho tirei aquele cheiro horrível do cigarro, peguei um tranqüilizante, que havia comprado e nem vi a hora que ela veio se deitar. Por volta das 6,30 do dia seguinte eu estava acordado, quando ela se levantou como fazia todos os dias para levar os meninos. Fiquei quieto, como se ainda estivesse dormindo, ela se arrumou veio até mim passou a mão levemente eu meu rosto abaixou-se me deu um beijo na face e se foi. Quando ela saiu o desespero foi total chorei alto, acho até que a dona Matilde que trabalhava conosco ouviu o meu soluço e deve ter comentado alguma coisa com ela.

Continuamos sem tocar em qualquer assunto, mas a tristeza habitava os seus olhos cada dia mais. Até que num final de semana que os meninos tinham ido ficar com a avó, ela me disse que precisava me contar um fato grave, mas que não queria que nada mudasse nas nossas vidas. Eu fixei meu olhar nela, as lágrimas já caiam aos montes e lhe disse: não é necessário, eu já sei de tudo.

Nesse momento foi a primeira vez que a vi chorar, pela sua doença, repentinamente ela levantou bem o corpo e me disse: presta atenção no que vou te falar! Quero que seja cumprido integralmente, eu permaneci em silêncio, em estado de choque, e ela continuou, a felicidade a paz e a alegria fizeram morada eterna nessa casa e mesmo depois da minha partida eu não quero que nada mude, tudo deve continuar como antes. Disse ainda mais, o médico falou que no meu caso cirurgia não resolve, e como eu não quero e não vou tomar quimioterapia, porque não quero passar o pouco que me resta em hospital, pedi ao médico que não me deixe sentir dor e ele me prometeu.

Prosseguiu dizendo ainda tem mais, quando chegar a minha hora eu quero ser cremada e quero que minhas cinzas sejam jogadas no jardim que fica de frente ao hotel onde ficamos em Campos do Jordão, não deixa de atender a esse meu pedido, quero que seja lá, pois foi o lugar onde tive os primeiros contatos intimos com o homem mais encantador da terra, preciso dizer o nome? Indagou ela? esboçando novamente aquele sorriso descomunalmente belo. Eu apenas afirmei que não com o movimento da cabeça.


Aí ela sentou bem pertinho de mim, e ficou passando as mãos em meus cabelos, eu não pensava nada a única coisa que eu queria era ir embora com ela, pois a minha vida não teria mais sentido. Eu disse lhe e os meninos, como vão reagir a isso tudo? ela me disse não conte nada por enquanto está no final do ano e eles tem provas finais, deixa tudo para o momento oportuno fique calado.

Depois, dessa conversa, tudo ficou muito triste, a Meryelle chegou a procurar para mim se eu estava doente, pois tinha perdido 7 quilos em um mês, respondi que não, tinha ido ao médico e ele me mandou fazer regime porque a minha taxa de colesterol estava muito alta. Ela disse sei não, com a mamãe sei que está tudo bem, mas com você sei lá. Pegou uma blusa que estava caída no chão, e subiu correndo as escadas, pensei meu Deus! O que vai ser de todos nós.

Ela não me procurou como descobri e eu nada contei, aí veio um sofrimento brutal pelos efeitos dos medicamentos que tomava mesmo sem a quimioterapia, mas nunca deixou de ser linda e o amor da minha vida, essa angústia parecia eterna o tempo fazia pirraça e nada dava sinais de melhorar, durou um ano e quatro meses até que o dia que tive que entrega-la nas mãos de Deus.

Hoje já se passou quase seis anos, mas o meu amor, dia-a-dia, se torna maior, nunca mais tive ou terei ninguém, vivo pelos meus filhos sou um viajante do tempo que aguarda sereno e ansiosamente que o relógio da existência marque logo a minha hora de encontrá-la, pois a minha saudade não tem limites e o amor que sinto por ela está muito além da imaginação.

Só contei essa minha história, para que de forma eterna fique registrado, de público, o que é o amor e como se deve amar, então se você tem alguém especial, cuide dele como eu cuidei dela e ela de mim; eu hoje posse afirmar que fui privilegiado por ter compreendido a grandeza do amor em toda sua plenitude.

Hoje o Luiz Eduardo é piloto de jato na força aérea a Meiryelli namora um médico bom moço e quanto a mim estou aqui debruçado no muro da saudade, esperando em breve encontra-me com a atriz principal no palco da vida eterna.

Descanse em paz meu amor! Obrigado por ter existido e ter sido minha; você me amou com ternura, mas tenha a certeza de que nesse mundo em que você viveu não encontraria, jamais, outro homem que pudesse amá-la como eu a amo. Logo estarei chegando falta pouco eu sei.


PARA O MEU GRANDE AMOR

Autoria desconhecida.
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