segunda-feira, 31 de março de 2008

MULHER FACEIRA


® Artur da Távola

Ninguém mais sabe o que é ser faceira. A palavra foi se desgastando pela deformação semântica tão comum em atitudes revogadas. Quem hoje, saberá o que representa para uma mulher ser faceira? Hoje a moçada não está nem aí para ser faceira. Quer é ser gostosa, expressão algo grosseira nada obstante sua veracidade.

Não! Não! Não! Faceiro é muito mais do que isso. Amiga minha, bela mulher, "racé", classuda, com ar de princesa, mais para Grace Kelly outro dia reclamava a quem lhe elogiava a beleza de cisne: “— Estou cansada de ser princesa, elegante, classuda! Nunca ninguém me chamou de gostosa.” Pois tive vontade de lhe dizer que muitas vezes subjaz(1) na mulher faceira uma sensualidade refinada, intensa mas calada, discreta, sofisticada até, longe e superior à concepção atual da “gostosa” que nos é imposta pela propaganda de cerveja, essa insuportável e deletéria propaganda de cerveja. Pois fico com a mulher faceira. Faceira é a mulher que tem o gosto do garbo, da tafularia, da afetação, do dengo, como formas de expressar alegria, prazer de viver, vitalidade, delicadeza de sentimentos, uma certa ânsia de harmonia, de mansidão, de conviver gostoso.

Faceira vem de face, que deriva do latim “facies” ou “facia”, no latim popular. O sentido desta expressão é o de “forma exterior”, “aspecto geral de alguém”, “ar”. Pois faceira é a mulher que consegue fazer de seu “aspecto geral”, um ar de beleza, juventude, alegria, leveza. Em Portugal esse sentido ainda perdura e é falado.

Leveza é a virtude, minha doce leitora. A vida é tão carregada de densidades, dores e problemas, que passar por dentro deles e conseguir manter uma face jovem, taful(2) e um ar alegre, indica uma filosofia de vida, uma energia, uma saúde interior. A pessoa faz-se leve às demais. Desobriga os outros do peso de suportá-la, entendê-la, ouvir-lhe os sofrimentos.

Faceira, portanto, é graça, e muita, na mulher!

Um amigo português usa outra palavra correta, devido ao hábito do falar preciso de Portugal: garrida sim, a faceirice faz as mulheres garridas, elegantes, enfeitadas, brilhantes, casquilhas(3). Por falar nisso, ocorre-me uma outra característica a da mulher catita(4). Essa caiu em desuso. Mas os portugueses ainda têm outros recursos no idioma para elogiarem as mulheres: “airosa” !

Faceira, garrida, catita, airosa, seria a bela mulher carioca a recuperar nos seus modos feminis, alguns adjetivos que caíram em desuso. Seria a mulher a recuperar, com novas modas e contornos, os adjetivos que envelheceram. Soem as trombetas. Está cheio de faceiras, airosas e garridas pelas ruas e praias deste Rio de Janeiro. Deus as abençoe! Quanto à hoje badalada gostosa, cuidado: isso só sabe na hora do amor.

O resto é voyeurismo...

(Presente de Hilda Persiani de Oliveira)

quinta-feira, 27 de março de 2008

PRIMAVERA


Já vivi a primavera da vida,
Hoje só o outono me restou
da primavera a saudade,
do perfume que ficou.

A primavera é, sem dúvida,
A mais bela estação
O perfume que ela exala
deixa tonto o coração.


Na primavera tudo é certo,
Até mesmo os erros cometidos
Nada tem muita importância,
São simplesmente coisas da vida.


Hoje vivo o outono da vida,
E me contenta o coração
Ensinando aos jovens primaveril
A beleza da estação.


Sou um homem solitário,
Mas não vivo na solidão
Faço disso um modo de vida,
Que me acalma o coração.

autor. E. Barboza Neto

dedicado à (pme).

A VOZ DO SILÊNCIO



 Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
Marta Medeiro

quarta-feira, 26 de março de 2008

ESPERA


Se tivesses mandado uma palavra "Espera"!
Sem mais nada, nem mesmo explicado até quando
Eu teria ficado até hoje esperando ...
--Era a eterna ilusão de que fosses sincera

Que importaria a vida, o sol a primavera
Se eras a vida, o sol, a flor desabrochando
Se tivesses mandando uma palavra "Espera"!
Eu teria ficado até hoje esperando ...

Não mandaste. Tu nada disseste, e eu segui
Sem saber que fazer da vida que era tua
Procurando com o mundo esquecer-me de ti

E o afinal, irônico e mordaz
Ontem, fez-me cruzar com teu olhar na rua
Ouvi dizer-te "Espera" e ser tarde demais!

**J.G. de Araújo Jorge**

quarta-feira, 19 de março de 2008

HOUVE UM TEMPO EM QUE SE NAMORAVA


Houve um tempo em que se namorava muito e se pensava que se sofria muito - por amor, claro.

As paixões se acendiam, embaladas pelas músicas do momento, que faziam parte integrante de nossas vidas.

Quando, numa reunião - havia muitas reuniões nessa época -, os olhares se cruzavam, enquanto se ouvia "se você quer ser minha namorada, ai que linda namorada você poderia ser", o coração se derretia e era hora de ir ao banheiro com uma amiga, só para contar.

Uma bebidinha daqui, muitos sorrisinhos dali, e, na décima vez que o disco tocava e chegava no trecho "mas se em vez de minha namorada você quer ser minha amada, minha amada, mais amada pra valer", e ele olhava de longe, desta vez sério, o coração só faltava sair pela boca.

Muitos anos e muitos amores depois, foi a vez de Roberto Carlos participar de todos os romances: "Você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci" - ah, uma boa dor-de-cotovelo ouvindo Roberto.

Quem nunca passou por isso não sabe o que é viver...

Num início de caso - em altíssima voltagem! - entrava Chico com "quero ficar no teu corpo como tatuagem" - e quem não queria?

E, no fim do caso, dava para agüentar "as marcas de amor dos nossos lençóis"?

Se ouvia muita música e, à noite, se ia sempre ao mesmo bar, onde um pianista tocava o que se tinha ouvido a tarde inteira; como todos se conheciam e sabiam das vidas uns dos outros,o pianista - Vinhas, quase sempre - atacava a "nossa" música... aquela!

A noite prosseguia com os olhos grudados na porta, para ver se ele entrava. Se entrasse sozinho, era hora de ir ao toalete, não para retocar a maquiagem, mas para respirar fundo e jurar, mas jurar de pés juntos que não ia nem olhar para o lado dele. A madrugada se encarregava de mudar os planos.

Depois, veio "Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa". As músicas diziam tudo o que não se tinha coragem de dizer, e era como se falassem por nós.

Que mulher não cantou baixinho, depois que ele foi embora, "quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem", e não fantasiou que quando ele ouvisse "e tantas águas rolaram, tantos homens me amaram, bem mais e melhor que você" ia imediatamente pensar nela, quem sabe sofreria, quem sabe teria uma crise de ciúmes e pegaria o telefone de madrugada? Quem sabe... quem sabe?

E quando ela se "enrolou" toda com a chegada de um namorado que não esperava e ficou repetindo o disco, no trecho que dizia "se na bagunça do teu coração", para ver se ele entendia que o coração, às vezes, vira mesmo uma verdadeira bagunça, como o dela, naquele momento?

Ah, Chico, ah, Roberto; vocês algum dia souberam que tinham sido tão importantes na nossa vida?

Pois fiquem sabendo: foram.

Nesse tempo as moças não levavam os namorados para dormir em casa, ou porque tinham pais ou porque tinham filhos; para isso havia os motéis.

E do primeiro a gente nunca esquece... A cama redonda com cabeceira de curvin, a piscina - uma banheira de 2 X 2 -, o som embutido na cabeceira e, sobretudo, o clima, um clima de pecado que as moças da zona sul adoravam.

Quando Roberto cantava "Amanhã de manhã vou pedir um café pra nós dois, te fazer um carinho e depois te envolver nos meus braços" e ele deixava "o café esfriando na mesa, esquecemos de tudo" e vinha o "pensando bem, amanhã eu não vou trabalhar, e além do mais, temos tantas razões pra ficar", não era preciso dizer nada: era a hora do telefonema para a empregada às 6 da manhã para que ela desmanchasse a cama e dissesse que você saiu cedo para buscar uma amiga no aeroporto, lembra?

Grandes tempos.

Hoje a gente olha para trás e pensa: mas essas paixões existiram mesmo?

Sem Chico e sem Roberto teriam havido tantas, tão intensas e tão arrebatadoras?

Delas a gente até esqueceu, mas não do que se sentia ao ouvir "mas eu estou aqui vivendo este momento lindo".

E dá para viver momentos lindos hoje, ouvindo os Racionais MC?

Pensando bem, o grande combustível de nossos corações foram as canções de Chico e Roberto.

E, olhando para trás, é bem possível que a certeza de que "se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi" não existiria sem a música de Roberto.

Foi bom demais ter vivido esse tempo.
Danuza Leão

segunda-feira, 17 de março de 2008

O CALA A BOCA DO REI


Todo menino passou por isso ao menos uma vez: Ter de encarar um valentão na escola. Todo mundo já foi para o recreio passando por uma odisséia mental, e a nada metafórica górgona que o aguardava era um moleque mais velho e mais forte, espancador de menores e ladrão de merenda. Todos conhecem o tipo. E todos evitavam cruzar com ele, claro. Quanto maior a distância, menor o problema. Mas alguns usavam uma tática oposta; viviam puxando o saco do sádico mirim. Eram os baba-ovos de plantão, que compravam a simpatia dele com as adulações. Quando o valentão escolhia um deles pra extravasar sua violência natural, a saída do puxa-saco agredido era fingir que tudo não passava de uma brincadeirinha do amigão. Diminuía o tempo de surra e salvava as aparências. Assim o puxa-saco continuava amiguinho do covardão e tentava fazer com que os outros acreditassem que era apenas uma travessura. E afinal, quase nem tinha doído, gente.

Semana passada Lulla riu de Hugo Chávez quando foi chamado de sheick da Amazônia e de magnata do petróleo, entre outras graves ofensas. Tudo televisionado. O riso nervoso, forçado, demonstrava claramente que Lulla tinha medo. Lulla morre de medo de Chávez, o valentão boquirroto. Lulla fez o papel de amiguinho para apanhar menos.

Lulla foi ironizado, espezinhado, humilhado pelo psicopata Hugo Chávez , na Cúpula Ibero-Americana, ocorrida no Chile. Riu, nervoso, quase histérico, para disfarçar a humilhação mundial que passava. Não só ele, mas, aos olhos do mundo, todo o Brasil foi, de novo, agredido verbalmente pelo venezuelano. O mesmo que chamou nosso Congresso de papagaio dos americanos.

O rei da Espanha não comunga com esses pensamentos. Não agiu como Lulla, fingindo que era tudo brincadeirinha do amigão do peito. Não foi fraco, não foi pusilânime. Quando o psicopata falou mal da Espanha e do ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, chamando-o de fascista, ouviu o merecido cala-boca; rei Juan Carlos, um homem educado, piloto aposentando da Força Aérea espanhola, fidalgo que bem representa seu país, deu seu recado ao ditador. E ao mundo: chega desse imbecil. Algo que não ouviu do presidente brasileiro; Lulla perdeu uma excelente chance de mostrar que não somos idiotas, ou ao menos, que não é covarde. Estamos mal. Lulla riu (riu!) ao ouvir as ofensas ironicamente dirigidas ao Brasil e à sua triste figura, meu nobre cavaleiro Dom Quixote; digo, Sancho Pança. Moinhos que o digam. Cervantes foi honrado pelo seu rei.

Fomos humilhados pelo nosso presidente, mais ainda que pelo falastrão venezuelano. É de chorar; justamente quem deveria, até pela força de seu cargo, defender o Brasil de Chávez, preferiu fingir que a pancada não doeu. Achou melhor assim. Lulla só mostra as garras com os menores, como o jornalista americano Larry Rother, que relatou as paixões etílicas do presidente e quase foi deportado pelo "crime". Com os mais parrudos, age diferente; Chegou até a ficar amicíssimo de Fernando Collor, José Sarney e Orestes Quércia, a quem antigamente chamava de ladrões.

Com Evo Morales não foi diferente. O boliviano espoliou e humilhou o Brasil invadindo militarmente a Petrobrás, com transmissão ao vivo pela TV mundial. Lulla fez que não era com ele. Como se a pedrada não tivesse atingido suas costas.

O rei espanhol provou que tudo tem limite. Fez com Chávez o que Churchill fez a Hitler em 1938: Avisou ao mundo o perigo que representa um tirano demente e armado até os dentes. Parece que Juan Carlos teve mais sucesso que o inglês em sua empreitada. O alerta foi ouvido.
A Europa cansou de Chávez. O rei disse o que muitos pensam, mas não falam. O venezuelano odeia a Espanha, um país que enriqueceu à custa de muito trabalho duro. Muito diferente da Venezuela, que empobrece a olhos vistos, não obstante as fortunas arrecadadas com a exportação de petróleo, cujos lucros vão diretamente para o ralo do populismo e da corrida armamentista.
Na escola em que o rei Juan Carlos ministra aulas, Lulla ainda está no primário. E Chávez o espera no recreio, para roubar nossa merenda.

:: Fernando Montes Lopes Advogado

TESTE DE SEDUÇÃO


Andava me achando feia e com saudades da mulher gostosa e safada que eu fui no passado. Fiquei pensando, será que eu ainda sei paquerar? E o pior, será que eles ainda me querem? Ah, o que não se faz pela vaidade....
Ando tão séria de uns tempos pra cá que quando um homem olha para mim,já fico pensando que pode ser um ladrão, um parente que não vejo há tempos ou alguém que vai me pedir alguma informação.
Que saco! O que aconteceu com aquela mulher sedutora, quente e convencida que eu era? E se eu estiver certa e realmente a fase gloriosa e libidinosa que eu passava se acabou?
Fiquei a matutar isso o dia inteiro, até que, resolvi sair de carro e paquerar. Não paquerar alguém da minha idade. Não. Eu iria assediar alguém mais novo enquanto dirigia, e ter a certeza do desfecho deste drama.
Sai dirigindo e olhando nos sinais de trânsito em que eu parava.
As expectativas eram poucas. Ou homens muito velhos, e neles a minha tese não se baseava, ou homens de 18, 19 anos. Da idade do meu filho não, que aí era pedir demais.
Até que eu comecei a colocar a música do carro bem alta e abri a janela. Agora sim, som alto, música tipo "I will survive" e lá ia eu!!
Pensei no quanto de idiota eu estava sendo e na cara de dois de paus que eu iria ficar, se nada acontecesse.
Então, um carrinho com um rapaz de uns 28 a 30 anos parou ao meu lado e enquanto eu me organizava no meu teste-sedução, nem notei que ele já estava olhando para mim. Que felicidade!!!
Que felicidade!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ensaiei meu sorriso à la Monroe e consegui deixar o carro bem próximo ao dele. E ele continuava a olhar! Nem acredite
i que aquele gato olhava para mim! Então ele falou..... (Ele falou, ai meu Deus!)
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Tiaaaa......., a porta está aberta!


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(Presente de Maria Carolina)