domingo, 13 de setembro de 2009

ONDE FOI PARAR O TEMPO?[Marcelo Canellas]


Onde foi parar o tempo que ganhamos?

Havia mais terrenos baldios.

E menos canais de televisão.

E mais cachorros vadios.

E menos carros na rua.

carroças na rua.

E carroceiros fazendo o pregão dos legumes.

E mascates batendo de porta em porta.

E mendigos pedindo pão velho.

Por que os mendigos não pedem mais pão velho?

A Velha do Saco assustava as crianças.

O saco era de estopa. Não havia sacos plásticos,

levávamos sacolas de palha para o supermercado.

E cascos vazios para trocar por garrafas cheias.

Refrigerante era caro. Só tomávamos no fim de semana.

As latas de cerveja eram de lata mesmo, não eram de alumínio.

Leite vinha num saco.

Ou então o leiteiro entregava em casa,em garrafas de vidro.

Cozinhava-se com banha de porco.

Toda dona-de-casa tinha uma lata de banha debaixo da pia.

O barbeador era de metal, e a lâmina era trocada de vez em quando.

Mas só a lâmina. As camas tinham suporte para mosquiteiro.

As casas tinham quintais.

Os quintais tinham sempre uma laranjeira, ou uma pereira, ou um pessegueiro.

Comíamos fruta no pé. Minha vó tinha fogão a lenha.

E compotas caseiras abarrotando a despensa.

E chimia de abóbora, e uvada, e pão de casa.

Meu pai tinha um amigo que fumava palheiro.

Era comum fumar palheiro na cidade; tinha-se mais tempo para picar fumo.

Fumo vinha em rolo e cheirava bem.

O café passava pelo coador de pano. As ruas cheiravam a café.

Chaleira apitava.O que há com as chaleiras de hoje que não apitam?

As lojas de discos vendiam long plays e fitas K7.

Supimpa era ter um três-em-um:toca-disco, toca-fita e rádio AM (não havia FM).

Dizia-se 'supimpa', que significa 'bacana'. Pois é, dizia-se 'bacana', saca?

Os telefones tinham disco.

Discava-se para alguém. Depois, punha-se o aparelho no gancho.

Telefone tinha gancho. E fio.

Se o seu filho estivesse no quarto dele e você no seu escritório,

você dava um berro pra chamar o guri,

em vez de mandar um e-mail ou um recado pelo MSN.

Estou falando de outro milênio, é verdade.

Mas o século passado foi ontem!

Isso tudo acontecia há apenas 20 ou 25 anos, não mais do que o espaço de uma geração.

A vida ficou muito melhor.

Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso.

Então por que engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados?

Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada?

Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos

quinta-feira, 9 de julho de 2009

VENHA LOGO


© Silvana Duboc08/06/2007Quando você se vaideixa uma saudade tão intensaque minha alma pensaque não vai aguentar,meu coração tende a parar,meu corpo se abandona em qualquer lugar.


Quando você se vai fica faltando um pedaço meuque há muito já é seu,que dentro de você se escondeu.Quando você se vai as luzes da cidade se apagam,os silêncios bradam,os gritos calam,os raios de sol desapareceme as estrelas se esquecemque junto da lua devem ficarpara que ela não se sinta sóe desista de brilhar.


Quando você se vai tudo muda de lugar.Até as batidas do meu coraçãomudam de posição e do lado direito do meu peito disparam dando sinal de insatisfação.


Mas quando você se vai tem, também, algo de muito bom.Seja qual for o lugarque você possa estar,próximo ou distante de mim,antes de ir você me diz assim;Comigo eu a levarei!E o que eu não sei é como isso pode acontecer pois você continua aqui comigo mesmo sem perceber.


"O amor desconhece partidas e distâncias. Quem vai leva uma parte considerável de quem fica e quem fica guarda um pedaço imensurável de quem se foi. Por isso, pra mim você não se foi e pra você eu não fiquei."

VENHA LOGO


Eu tenho procurado por você faz tanto tempo... acho que tenho procurado por você por toda a minha vida.


Não sei que fim levou você, ou em que planeta se escondeu, porque eu sei que você existe e que está do mesmo jeito que eu, buscando por mim sem saber direito que existo e que estou aqui, esperando por você.


Só que de repente fiquei cansada e desisti de aceitar da vida o que ela tinha pra me oferecer, e por causa disso os últimos anos foram muito difíceis, e agora parece que acordei de repente e quando olhei em volta percebi que o mundo havia se desabitado de verdade, e as pessoas estavam cada vez com mais e mais pressa de passar e não deixar marcas e não consegui mais contato com ninguém que se aventurasse a ir além de arranhar a superfície pra procurar através daquilo que parece e não é.


Já tenho sessenta anos agora e ainda estou à sua procura, e se passar mais outro tanto sem você chegar juro que vou enlouquecer, e é por isso preciso que você venha logo, entende, pra gente tentar ser feliz enquanto é possível respirar, pra que a gente possa caminhar por aí dividindo alguns sonhos, e ainda que não tenha muitos eu prometo que ajudo a sonhar os seus porque nesse tempo de esperar por você nem tenho mais dado conta de ter meus próprios sonhos.


Eu sei como você é e que gosta de madrugada e de dia de sol, e também que não vai se importar se vez por outra eu falar baixinho pedindo que me dê a mão para eu poder dormir porque preciso me sentir amparada no meu sono, e que nem vai se incomodar de ser muito amado, nem se sentir desconfortável quando eu disser "eu te amo" mais do que é permitido no manual da boa moça, porque afinal não sou nem boa nem moça... sou uma mulher querendo muito dizer eu te amo pra você.


Quero mesmo é respirar e sentir o seu hálito quente em meu rosto, e seus dedos alisando de mansinho as rugas que se formarem em volta dos meus olhos quando eu sorrir dizendo bom dia porque sei que o dia que começar com sua cabeça no travesseiro ao lado com certeza só poderá ser bom, infinitamente melhor que os dias em que acordo e amontôo os travesseiros para que a cama não pareça assustadoramente vazia como tem parecido nestes últimos anos.


Ah, e quero rir... e rir de qualquer bobagem que seja, porque houve um tempo em que meu riso tinha um valor imensurável e fazia parte do meu charme, e eu sei que em algum lugar de mim ele ainda existe, à espera de espaço para fluir e se fazer presente... quero sair de dentro de mim sem medo de não ser aceita, nem compreendida, porque quando você conhecer a mim vai me amar do mesmo jeito que eu vou amar você.


E então meu riso vai brotar de dentro de mim pra você.


Eu fico aqui pensando que você deve ter se cansado de me procurar e ficou assim que nem eu, perdido nesse marasmo, mas ainda tem jeito de você chegar porque afinal, ambos estão tanto tempo à procura um do outro mesmo, que nada melhor que nos encontremos de uma vez.


Então desce desse planeta quase extinto e vê se chega pro café da tarde, mas não espere que tenha bolo de fubá na mesa porque preciso confessar a você que não sei cozinhar, nem fiar, nem bordar, nem fazer essas coisas todas que ensinaram a você que as moças prendadas faziam.


Por outro lado, tenho cá meus encantos, faço um silêncio pra lá de especial, sei caminhar macio e parecer invisível quando necessário e também adoro jornal espalhado pela casa, ainda que dividido em seções possa parecer mais civilizado. E farelos: sou doida por farelos por todos os lados e não dou a mínima se tiver roupa atirada por aí, conquanto você aqueça meus pés nas noites frias de inverno.


Pensando bem, preciso também dizer a você que nestes anos em que está demorando pra chegar adquiri alguns hábitos não muito saudáveis, como por exemplo comer fora de hora e nunca à mesa, e de dormir tarde e acordar mais tarde ainda... mas tenho certeza que podemos ajustar nossos relógios e encostar nosso tempo de ser feliz e eu até prometo abrir mão dos farelos se você precisar dormir num lençol impecavelmente esticado; e embora odeie futebol prometo nunca perguntar que graça tem vinte e dois bonequinhos correndo atrás de uma bola porque nessa hora vou estar na cozinha vigiando o microondas estourar pipocas pra você.


Não sei porque você ainda não despencou dessa árvore onde pendurou sua desesperança, mas eu torço que você esteja escorregando dela e que caia direto nos meus braços abertos à sua espera porque aí nós vamos poder dançar descalços pela vida por um bom tempo ainda, pois o amor rejuvenesce e revigora a gente; e afinal, que importa se nossas idades somadas perfazem mais de um século se há toda uma eternidade à nossa espera?


Eu sei que você existe e que está apenas esperando que eu lance à sua praia a garrafa com o fatídico bilhete amarelado pelo tempo dizendo venha me buscar! mas acho que você também perdeu a esperança porque tenho mandado meu navio atracar seu porto todos os dias e você nunca está na beira da praia...Tem outra coisa que preciso lhe contar: é que meus cabelos agora estão brancos, e eu os pinto pra disfarçar, mas daí fico pensando que não deve ter lá tanta importância porque com certeza se você tiver os seus ainda serão brancos também; e isto me faz lembrar que se por acaso você tomou cerveja demais ao longo da vida eu não vou me incomodar que isto tenha lhe dado barriga desde que você não se importe que eu não possa mais andar de mini-saia.


Ah, tem coisa à beça que quero lhe contar desse tempo de esperar por você, mas prefiro que seja baixinho no seu ouvido, porque alguns pecadinhos ditos em voz alta podem parecer maiores; por outro lado a gente pode fazer um pacto de silêncio e começar tudo outra vez, e criar um tempo novo onde sejamos apenas eu e você e mais nada.


Agora, eu acho que fotografias de netos vão acabar aparecendo de um jeito ou de outro, e nesse caso é bom que você saiba que embora avó, tenho muito da menina que você tem procurado pela vida afora.


Ainda tem luzes nos meus olhos, minha boca continua macia, e eu sinto que quando você me tocar as sensações da adolescência e da primeira vez vão estar todas ali do jeito que você espera.Olha eu aqui. Mesmo que eu não seja exatamente como você me criou em sua imaginação, quero que compreenda que passaram anos desde que você começou a me procurar.


Por isso, procure enxergar além de mim mesma, através da roupa que me veste, do corpo que me cobre a alma, e descubra a mim, aquela que sou na minha essência e que tem estado todo esse tempo à sua espera.


Ah, esqueci de lhe dizer uma última coisa: pode chegar a qualquer hora, viu, porque qualquer hora é hora de chegar e você vai ser muito bem-vindo quando finalmente abrir a porta e habitar meu mundo e nossas solidões puderem se alisar até se diluírem no calor do nosso abraço e depois disto nunca mais seremos sós.


E ficaremos finalmente em paz.**Maria Tereza Albani**

CORPO DE MULHER


É um ninho de emoções que não verás através da sua pele…Uma geografia que admiras, sem chegares à sua essência.


Despir uma mulher, não chega para descobrir o seu mundo secreto.É muito provável que os seus olhos te contem muito mais…Ela sabe que para chegares à sua alma,deverás olhar com muito mais paciência.


Mesmo despida, estará vestida de mistério O fogo do seu interior,só o conhecerás olhando o seu coração…Mesmo sem roupa, na tua frente, não te pertence…Ao despires uma mulher,nunca conseguirás tirar-lhe a sua melhor prenda…o pudor.


Não existe seda que supere a sua pele...Nem tela que possa esconder o seu encanto.


Despir uma mulher ou tirar as pétalas a uma flor…É chegar até à porta dos sentidos,E ajoelhar diante do altar sagrado da sua fonte de vida.


Mas lembra-te… ela continua sem te pertencer Não conhecerás o seu céu… mas talvez conheças algo do teu.


Com ela, pode o artista esquecer por completo o que é uma linha reta...e naufragar num mar ondulado de luzes e sombras.


Não te estou dar um presente para os teus olhos…Trata-se de um presente para a tua alma...Sem luxúria, sem humor negro, nem duplas mensagens...Mel, orvalho, frutas, aromas e sabores.


É uma das melhores obras de arte de Deus,transferida para a pintura,para a fotografia epara a escultura.A tua inspiração nasce dela…Talvez um dia.......(AD)(Presente de Vera Perdigão)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

DEIXE-ME GOSTAR DE VOCÊ (Fátima Irene Pinto)


Deixe-me gostar de você feito criança porque descobri que é o único jeito que consigo gostar de verdade, sem confusão, sem hipocrisia.Deixe-me gostar de você da forma mais simples, sem porquês, sem perguntas, sem articulações.


Se eu ou você pensarmos muito e nos colocarmos sob o crivo da razão, teremos que ver entre as nossas qualidades também os nossos defeitos. Teremos que ver a treva que coabita com a nossa luz. Então deixe-me gostar de você como criança. Criança gosta sem pensar.


Deixe-me gostar de você sem cobranças, sem compromissos que não sejam aqueles que nós dois estabelecemos para nós mesmos e não aqueles que os homens inventam que devemos seguir à risca toda vez que resolvemos gostar.


Deixe-me gostar de você da forma mais inocente que eu puder.Neste gostar permita-me descartar toda a cultura, filosofia, modismos, conceitos ou preconceitos, dogmas, todo e qualquer mandamento ou imposição que venham de fora. Quero apenas ouvir meu coração, assim como quero que você ouça o seu.


Se eu ficar com você um minuto, uma semana, um mês ou um ano, que seja pelo real prazer de ficar, pois aprendi que não é a duração, mas a qualidade que transforma um único minuto numa experiência com gosto de eternidade.


Deixe-me gostar de você sem expectativa, sem planos para o futuro, sem gaiolas que limitem o meu querer porque o futuro é tão incerto e nunca é do jeito que pensamos.Se nos gostarmos de verdade, é possível que haja muitas ações no presente e é só isto o que verdadeiramente importa.


Acima de tudo, deixe-me gostar de você deixando-o completamente livre para ficar ou para partir. Deixe-me gostar de você sem máscaras e sem verniz.E se um dia eu disser adeus e partir, creia, será no exato momento em que eu descobrir que já não sou capaz de me fazer ou de o fazer feliz.

sábado, 2 de maio de 2009

MULHER MADURA


"Este é um texto que achei maravilhosopara todas as mulheres.Tenho amigas na Net, muito queridas,de vinte a noventa anos.Muitas estão de bem com a vida que temoutras gostariam muito de ser diferentese se aproveitarem da alta tecnologiaestética do momento. Eu gosto de todasvocês, exatamente como são hoje."Tenho cabelos loiros, pintados, para esconder os fios brancos. Não me lembro exatamente em que ano eles começaram a branquear... Tenho algumas rugas em volta dos olhos, também não me recordo quando elas começaram a aparecer. Tento disfarçá-las, tantas novidades no campo da dermatologia, achei por bem aproveitá-las. Do corpo não cuido quase, só recentemente entrei para uma academia por ordem médica. Ele me disse que na minha idade preciso de exercícios. Mas falto mais do que vou, não gosto de fazer ginástica. Das minhas unhas cuido semanalmente, penso que elas são uma porta de visita. Unhas maltratadas causam uma péssima impressão. De uns dois anos pra cá descobri os cremes e aí compro um aqui, outro ali e no final não uso nenhum, mas compro, só de olhá-los na prateleira já percebo que as rugas se retraem. Sou assim, vaidosa, mas não sou em excesso, penso que sou na medida certa, na medida correta para uma mulher. Enfim os anos passam e as marcas que eles deixam em nós, não temos como conter. Nem pretendo isso. Acho que cada marca que meu corpo carrega tem uma linda história. Às vezes me pego na frente do espelho descobrindo uma nova ruguinha e já me coloco a pensar o que a causou. Depois reencontro com outra que já está lá vincada há anos e me recordo que ela apareceu quando perdi um grande amor. Poderia enumerar também a história de cada fio de cabelo branco. Foram filhos, maridos, amigos que colocaram eles ali. Não quero me desfazer de nenhuma dessas marcas, apenas amenizá-las, acho que mereço isso. A vida me deve isso. Atualmente a parte que merece mais atenção minha tem sido a cabeça. Tento todos os dias colocá-la no lugar, equilibrá-la, alimentá-la com sonhos e alegrias. Corpo e mente caminham juntos, se um estiver em estado lastimável o outro provavelmente vai se deteriorar. Não escondo minha idade, não adiantaria falar que tenho quarenta e cinco e apresentar uma filha de trinta e um. Portanto eu confesso, tenho 57 anos. Metade deles, bem vividos, a outra metade muito sofridos. Mas é exatamente aí que está o encanto da minha idade. Conheci de tudo um pouco, das lágrimas aos sorrisos e ambos me fizeram ser essa pessoa que sou hoje. Ficaram as rugas no rosto e na alma, mas também ficaram sorrisos em ambos. Minhas rugas mais bonitas são aquelas marcas de expressão que eu adquiri por tanto sorrir, muitas vezes, quando o coração chorava. © SILVANA DUBOC"Este é um texto que achei maravilhosopara todas as mulheres.Tenho amigas na Net, muito queridas,de vinte a noventa anos.Muitas estão de bem com a vida que temoutras gostariam muito de ser diferentese se aproveitarem da alta tecnologiaestética do momento. Eu gosto de todasvocês, exatamente como são hoje."Tenho cabelos loiros, pintados, para esconder os fios brancos. Não me lembro exatamente em que ano eles começaram a branquear... Tenho algumas rugas em volta dos olhos, também não me recordo quando elas começaram a aparecer. Tento disfarçá-las, tantas novidades no campo da dermatologia, achei por bem aproveitá-las. Do corpo não cuido quase, só recentemente entrei para uma academia por ordem médica. Ele me disse que na minha idade preciso de exercícios. Mas falto mais do que vou, não gosto de fazer ginástica. Das minhas unhas cuido semanalmente, penso que elas são uma porta de visita. Unhas maltratadas causam uma péssima impressão. De uns dois anos pra cá descobri os cremes e aí compro um aqui, outro ali e no final não uso nenhum, mas compro, só de olhá-los na prateleira já percebo que as rugas se retraem. Sou assim, vaidosa, mas não sou em excesso, penso que sou na medida certa, na medida correta para uma mulher. Enfim os anos passam e as marcas que eles deixam em nós, não temos como conter. Nem pretendo isso. Acho que cada marca que meu corpo carrega tem uma linda história. Às vezes me pego na frente do espelho descobrindo uma nova ruguinha e já me coloco a pensar o que a causou. Depois reencontro com outra que já está lá vincada há anos e me recordo que ela apareceu quando perdi um grande amor. Poderia enumerar também a história de cada fio de cabelo branco. Foram filhos, maridos, amigos que colocaram eles ali. Não quero me desfazer de nenhuma dessas marcas, apenas amenizá-las, acho que mereço isso. A vida me deve isso. Atualmente a parte que merece mais atenção minha tem sido a cabeça. Tento todos os dias colocá-la no lugar, equilibrá-la, alimentá-la com sonhos e alegrias. Corpo e mente caminham juntos, se um estiver em estado lastimável o outro provavelmente vai se deteriorar. Não escondo minha idade, não adiantaria falar que tenho quarenta e cinco e apresentar uma filha de trinta e um. Portanto eu confesso, tenho 57 anos. Metade deles, bem vividos, a outra metade muito sofridos. Mas é exatamente aí que está o encanto da minha idade. Conheci de tudo um pouco, das lágrimas aos sorrisos e ambos me fizeram ser essa pessoa que sou hoje. Ficaram as rugas no rosto e na alma, mas também ficaram sorrisos em ambos. Minhas rugas mais bonitas são aquelas marcas de expressão que eu adquiri por tanto sorrir, muitas vezes, quando o coração chorava. © SILVANA DUBOC

IRRETOCÁVEL


"Este é um texto que achei maravilhosopara todas as mulheres.Tenho amigas na Net, muito queridas,de vinte a noventa anos.Muitas estão de bem com a vida que temoutras gostariam muito de ser diferentese se aproveitarem da alta tecnologiaestética do momento. Eu gosto de todasvocês, exatamente como são hoje."Tenho cabelos loiros, pintados, para esconder os fios brancos. Não me lembro exatamente em que ano eles começaram a branquear... Tenho algumas rugas em volta dos olhos, também não me recordo quando elas começaram a aparecer. Tento disfarçá-las, tantas novidades no campo da dermatologia, achei por bem aproveitá-las. Do corpo não cuido quase, só recentemente entrei para uma academia por ordem médica. Ele me disse que na minha idade preciso de exercícios. Mas falto mais do que vou, não gosto de fazer ginástica. Das minhas unhas cuido semanalmente, penso que elas são uma porta de visita. Unhas maltratadas causam uma péssima impressão. De uns dois anos pra cá descobri os cremes e aí compro um aqui, outro ali e no final não uso nenhum, mas compro, só de olhá-los na prateleira já percebo que as rugas se retraem. Sou assim, vaidosa, mas não sou em excesso, penso que sou na medida certa, na medida correta para uma mulher. Enfim os anos passam e as marcas que eles deixam em nós, não temos como conter. Nem pretendo isso. Acho que cada marca que meu corpo carrega tem uma linda história. Às vezes me pego na frente do espelho descobrindo uma nova ruguinha e já me coloco a pensar o que a causou. Depois reencontro com outra que já está lá vincada há anos e me recordo que ela apareceu quando perdi um grande amor. Poderia enumerar também a história de cada fio de cabelo branco. Foram filhos, maridos, amigos que colocaram eles ali. Não quero me desfazer de nenhuma dessas marcas, apenas amenizá-las, acho que mereço isso. A vida me deve isso. Atualmente a parte que merece mais atenção minha tem sido a cabeça. Tento todos os dias colocá-la no lugar, equilibrá-la, alimentá-la com sonhos e alegrias. Corpo e mente caminham juntos, se um estiver em estado lastimável o outro provavelmente vai se deteriorar. Não escondo minha idade, não adiantaria falar que tenho quarenta e cinco e apresentar uma filha de trinta e um. Portanto eu confesso, tenho 57 anos. Metade deles, bem vividos, a outra metade muito sofridos. Mas é exatamente aí que está o encanto da minha idade. Conheci de tudo um pouco, das lágrimas aos sorrisos e ambos me fizeram ser essa pessoa que sou hoje. Ficaram as rugas no rosto e na alma, mas também ficaram sorrisos em ambos. Minhas rugas mais bonitas são aquelas marcas de expressão que eu adquiri por tanto sorrir, muitas vezes, quando o coração chorava. © SILVANA DUBOC